General Güemes/AR x Paso de Jama/AR

Amanheceu o dia em Guemes e o sol já estava alto às 7 da manhã. Os mecânicos atravessaram a noite trabalhando, sem dormir. E o Vectra estava quase pronto. Pelas 8 horas um dos mecânicos falou para eu manobrar a Caravan e colocar ela num canteiro entre as ruas.
Entrou embaixo do carro e testou a bomba de combustível. Disse que estava funcionando bem a bomba. Pegou um galão e colocou a gasolina que saia enquanto testava. Ai deu o diagnóstico. A gasolina era adulterada. Na Argentina a gasolina (nafta) é de cor azul ciano. O mecânico disse que essa gasolina SUPER é muito adulterada por ali, melhor seria abastecer com a INFINIA que é mais “pura”.
Falei para ele tirar uns 20 litros da gasolina que tinha no tanque. E depois completei com a tal Infinia.

Essa situação com o carro atrasou mais ainda nossa programação. Nosso roteiro original passando pelo um tempo no Deserto do Atacama, ficando uma noite lá pelo menos, agora estava comprometido!
Mais aliviados e seguros partimos dali em direção a San Salvador de Jujuy. Paramos em um posto de combustível El Refinor onde tomamos banho, nesse lugar tinha chuveiro de água quente, 30 pesos cada um.

Neste posto conversei com um motorista brasileiro, com sotaque baiano. Ele trazia ônibus novos do Brasil para o Chile. Contei do episódio da gasolina adulterada. Disse que todos eles evitavam abastecer em alguns postos da Argentina porque era isso mesmo, vendiam gasolina “batizada”. E que essa cidade de J. Gonzalez já tinha fama a tempo de vender gasolina ruim.
Na cidade de San Salvador de Jujuy procuramos um posto de combustível para completar o tanque pois sabíamos que já estávamos no próximo de cruzar os Andes. E os posto de combustível agora ficariam cada vez mais raros. E muito provavelmente seriam postos que não aceitariam cartão. A idéia era manter uma quantidade cédulas de pesos argentinos suficiente apenas para desovar no abastecimento antes de cruzar para o Chile.
Como era um domingo, os maiores supermercados que o Google indicava mais próximos da rodovia estavam fechados. Resolvemos ir em frente, e começamos a subir. A altitude onde estávamos era de 1250m iríamos chegar a mais de 4000…
Pois bem! Quando começamos a subir um trecho com maior inclinação o carro falhou. Digo que nesse momento a vontade de desistir bateu! Se eu tivesse sozinho talvez voltasse dali, mas não estava. Minha galera é de guerreiros e não se entregam por bem. Tiramos umas fotos enquanto resolvíamos qual seria a estratégia. Voltar para casa estava fora de cogitação. As alternativas eram voltar para San Salvador e procurar uma oficina no outro dia, que seria uma segunda-feira ou tentar subir até onde o carro fosse, parava, esperava, ligava e assim até onde fosse.
Pelo som que o motor fazia antes de apagar, parecia que não estava indo ar suficiente. Lembrava o som de quando o carro afoga. Tirei o filtro de ar, estava sujo. Então achei razoável voltar até San Salvador para tentar encontrar um lugar que vendesse um filtro novo. Num domingo seria difícil, mas em um posto de combustível grande poderia ter essa sorte. Voltamos pelo menos 60 km… E o interessante é que descendo o carro não falhava.

Não encontramos nenhum posto que vendesse filtro de ar, mas achamos um borracheiro deu um jato de ar no filtro e tirou uma boa parte da sujeira. E enfim não encontramos o bendito filtro. Voltamos para a rodovia e fomos tentar nova investida para cruzar os Andes.
Sabe a sensação do “já ganhou”? Então! Passava bem longe de nós! A situação não estava tranquila. Eu sabia que o carro poderia parar a qualquer instante. E aconteceu. E nem chegou a passar de onde tinha parado da vez anterior.
Agora era o seguinte. Ir em frente ou desistir de vez. Optamos pela primeira alternativa. Usando todas as táticas juntas: golpes no tanque, enconstar e ligar de novo e não deixando baixar de 2mil giros a rotação do motor. Fomos subindo. E quando chegou nas sequências de curvas fechadas, muito fechadas, que sofremos mais. Os meninos já tinham apelidado esses lugares de “intestinos” por causa do desenho que o traçado delas faziam no mapa.

A rodovia quase não tem acostamento, e em algumas partes existem mirantes. Eu já dirigia calculando se falhar já enconsto ali, se falhar encosto lá… Funcionou a estratégia, até chegarmos em um mirante à direita e uma curva muito forte para a esquerda em aclive bem acentuado. Vinha um caminhão atras de mim. Em velocidade baixa devido a subida ser muito íngreme. E quando fazia a curva o carro falhou. Nesse lugar não tinha acostamento, nem “bota-fora”, só um paredão a minha direita e a pista da mão contrária a minha esquerda e logicamente o caminhão atrás de mim que parou para não bater. Sobrou um pequeno espaço para eu voltar para trás e aproveitando a atuação da gravidade, segurando no freio com o pedal duro pois o motor estava desligado. Consegui parar na saída do mirante. Depois de algum tempo fui saber que o nome daquele lugar é mirante da Cuesta de Lipan.
Encontramos muita gente disposta a ajudar quando via nosso carro parado fora da pista. Alguns caminhoneiros paravam adiante e perguntavam se precisávamos de algo, alguns motoristas com automóveis também. Esta estrada por ser tão sinuosa e íngreme os veículos andam em velocidade muito reduzida, então fica mais fácil visualizar o que se passa adiante.
Na última vez que o carro falhou a neblina já estava bem próxima. Estávamos a pelo menos 4200 metros de altitude com certeza, pois já tinha passado pelo o tal marco de Jujuy e subido mais. Lamentei muito não poder tirar uma foto nesse marco, porém não dispunhamos desse privilégio e sim aproveitar cada vez que o carro funcionava e progredir o máximo que pudéssemos até vencer a subida dos Andes.
Na última vez que o carro falhou, estávamos quase saindo dos “intestinos”, e fiz gestos para o carro que vinha no sentido contrário parar. Perguntei ao motorista se faltava muito ainda para começar a descer, ele disse que “mais uns dois quilômetros”. Graças a Deus!


E de fato foi assim, quando começou a descer o carro não falhou mais. Assim, ficamos conformados pois concluímos que por conta do ar rarefeito na altitude ia menos oxigênio para o motor e consequentemente faltava potência e o motor cortava.
Quando chegamos nas salinas tinha alguns veículos parados e conversei com um casal que estavam em um veículo Spacefox. Eram argentinos, indo pro Chile também. Muito simpáticos. O motorista disse que conhecia aquele trecho e que o mecânico mais próximo agora seria no pueblo (equivalente a vila pra nós) de Susques mais ou menos uns 70km a frente. Pois bem, era um domingo e estava anoitecendo. Qual a chance de esse mecânico estar lá, atender e ainda saber mexer nesse tipo de carro? Mas vamos lá!


Esse casal não só deu toda essas informações como esperou tirarmos as fotos para nos acompanhar pela estrada até chegarmos em Susques e nos mostrar onde fica a oficina. Ainda existem pessoas boas no mundo!
Quando passamos pelo local onde teria o mecânico já era noite. Preferimos não para ali, já que o carro não tinha falhado mais e resolvemos apostar prosseguimos até a fronteira que estava mais 110km adiante. Não tiramos foto da oficina na ocasião, então peguei do Google Street para quem se ter uma idéia. Dá para imaginar porque arriscamos seguir em frente.

Esse casal amigo nos acompanhou até chegamos na fronteira de Paso de Jama. Não fiquei com nenhum contato deles, mas se algum dia lerem esse blog saibam que somos muito gratos pela assistência oferecida!
Agora sim, estávamos oficialmente no deserto. Ali tinha um vilarejo, um posto de combustível com uma lanchonete. Do outro lado da rodovia tem um restaurante. Tem hospedagens nas casas ao redor. Tem até wi-fi gratuito oferecido pelo posto!

Paramos na bomba para abastecer e o frentista disse que só aceitava pagamento em efectivo, cartão de credito não estava funcionando. Raspamos tudo o que tinhamos de pesos, dava pouco mais de 500 pesos argentinos, suficientes apenas para por colocar 11 litros de nafta.
A restaurante do outra lado da rodovia, também só efectivo. Mas com um pouco de prosa conseguimos convencer a proprietária a aceitar o pagamento com uma nota de 10 dólares. Fizemos um banquete de empanadas e refrigerantes! Cada empanada 20 pesos (R$2,00), comemos até fartar.

Encontrei alguns caminhoneiros brasileiros da transportadora Marvel. E eles relataram que seus caminhões também param de funcionar subindo os Andes. Falta oxigenação nos sistemas por isso param e aguardam alguns minutos. Ouvir isso me conformou mais, e animou a continuar a viagem. Só precisa ajustar o carro para não acontecer mais.
A fronteira estava fechada para atravessar. Não sabemos o motivo. Só iria abrir no outro dia após às 07h30. Então pedimos para usar o espaço atrás do posto para montar as barracas e ali pernoitamos. No posto tinha ducha gratuita, banheiros limpos. Tomamos o banho e fomos dormir.
























































