Dia 05 (25/02/2019)

Paso de Jama/AR até Sierra Gorda/CH

O dia amanheceu e essa era a visão de Paso de Jama. Casas quadradinhas, com tijolo a vista ou rebocado com argila. Muito pitoresco.

Preparamos o café da manhã, e já estávamos organizando as coisas para passar a fronteira, quando a Are fez sinal para me aproximar “Minha mãe não está passando bem”. Estava apresentando arritmia e falta de ar. Então ajudei a Are a fazer um exercício com a mãe dela. Pode ser útil para quem precisar. A pessoa senta no chão, com as pernas esticadas. Respira fundo e solta. Outra pessoa se posiciona ao lado semi ajoelhado e segura com uma das mãos a parte de tras da perna e com a outra mão apoia as costas. A pessoa que recebe a manobra prende a respiração enquanto a outra levanta as pernas rapidamente e segura as costas pra não bater no chão.

Eu já tinha visto uma ambulância passando pela rua atrás do posto indo em direção a Aduana. Deduzi que tivesse socorro médico por ali. Então colocamos a Neide no carro e fomos para a Aduana. Os meninos ficaram desmontando o acampamento. Mas para chegar até a Aduana o certo era passar antes por um posto policial que fica na rodovia. Eu vi os gestos dele me mandando voltar já estávamos quase chegando na Aduana. Voltei até ele e expliquei o que estava acontecendo, não sem antes levar uma bronca. Ele acionou uma ambulância pelo rádio e me disse para esperar ali. A ambulância chegou em alguns minutos, a Are e a Neide entraram nela e foram para a enfermaria que tem na Aduana. Agora já sabemos que o recurso de uma enfermaria na Aduana. Muito útil. Eu voltei para o local onde tinhamos acampado.

Na verdade lá, a passagem na Aduana funciona assim. Na rodovia antes de entrar na Aduana tem uma guarita que o policial te entrega um papel timbrado. Nesse papel você vai recebendo carimbos em cada etapa do trâmite na Aduana e entrega para o outro policial na saída.

Depois de uns 40 minutos vi a Are voltando a pé, de onde estávamos tinha visão da Aduana. Tudo certo com a Neide, estava recebendo tratamento. Era apenas os efeitos da altitude. Então fomos para a Aduana.

A Aduana de Paso de Jama é compartilhada. Existem vários guichês numerados onde é realizada a saída da Argentina e a entrada no Chile. Para trafegar com veículo estrangeiro no Chile é preciso fazer um registro de entrada do veículo também. Além do carimbo no passaporte te entregam um ticket com código QR que deve ser entregue na saída do país. Os procedimentos foram relativamente rápidos, considerandos que estávamos em 7 pessoas.

A vistoria do carro é que foi mais traumática. Confiscaram muitos dos alimentos que levávamos. Não aceitam a entrada de alimentos in natura sem embalagem industrial. Grão-de-bico, feijão, lentilhas, amendoim, castanhas, ovos… tudo recolhido! Não tiveram a menor piedade. Desfalcou em muito nossa provisão de alimentos. Ficamos muito chateados. Sábiamos que eram rígidos com questão de alimentos de origem animal, mas qualquer pessoa de conhecimento médio sabe que aqueles grãos que levávamos eram estéreis, não tinha o menor risco de contaminação. Enfim, não estamos acostumados com esse tipo de fiscalização de alimentos secos com tanto rigor em nosso país, imagino que devam ter seus motivos, mas beira a paranóia ou maldade dos fiscais mesmo.

Legal! Agora estávamos oficialmente no Chile!

A estrada é muito boa, bem conservada e sinalizada. Sinceramente, é uma sensação de liberdade e ao mesmo tempo de segurança.

Mas a primeira vez nessa estrada ninguém esquece. A paisagem que te acompanha é simplesmente espetacular.

Para quem está acostumado a dirigir e enxergar elementos verdes na paisagem, vai ter a impressão de estar em outro mundo. Algumas touceiras de mato rasteiro, mas margens. E só. O restante é areia e montanha, com… picos nevados!

Adiante cerca de 60 quilômetros depois da fronteira encontramos as lagoas de sal. É um verdadeiro espetáculo da natureza. Irresistível. Ou melhor dizendo, resistível; basta não estar muito interessado em água gelada para banhar-se.

Como não tínhamos muito tempo, e isso é muito triste, aceleramos. Próxima parada agora seria em San Pedro do Atacama.

Alguns quilômetros antes de chegarmos em San Pedro a estrada apresenta uma descida que parecia infinita e por demais íngreme. Os caminhões precisam descer praticamente na velocidade de uma pessoa andando, muito devagar, pois é perigosíssimo. Ficar sem freio é certeza de um fim trágico.

Muitas cruzes e capelinhas nas margens da rodovia. Existem muitos destroços de veículos acidentados nos precipícios.

E é nessa descida que podemos ter uma visão muito privilegiada do Vulcão Licancabur…

Vulcão Licancabur

E após a contemplação partimos para completar os primeiros 3000km da viagem… San Pedro do Atacama!

É muito místico! Simplesmente o próprio oásis… Não tem como explicar a sensação de acolhimento, a energia positiva desse lugar!

Essa passagem por San Pedro foi apenas para descansar um pouco, abastecer, cambiar, comprar algum alimento e água…

Considerando que estamos no deserto os preços não chegam a ser extorsivos. Se comparado com o preço praticado em postos de parada de ônibus no Brasil, só encontramos bagatelas!

O único posto de combustível não foi muito fácil de encontrar. Na verdade são apenas duas bombas e está localizado dentro de uma área cercada, uma espécie de clube. Fila única pra chegar. Bem precário. Porém o preço é o mesmo praticado nas outras cidades próximas, sem exploração.

Passamos algumas horas em San Pedro. Tentamos encontrar um hostel com preço acessível para uma pernoite, mas a queima-roupa não tivemos a menor chance… O camping mais em conta estava o equivalente a R$70 por pessoa, como estávamos em 7… dava quase 500 mangos… resolvemos partir em direção a Calama que fica mais 100km a frente em direção ao Pacífico.

Na caminho de saída de San Pedro encontramos a Cordilheira de Sal… um presente inesperado! Acompanhar o pôr-do-sol nesse lugar fantástico, impagável!

Nao dava vontade de ir embora daquele lugar… mas tinhamos que seguir em frente!

A próxima cidade indo em direção ao Pacífico estava a 100km, chamada Calama. Nosso plano era encontrar um posto de combustível, abastecer e pernoitar… mas não encontramos nenhum de fácil acesso na rota, então acabamos seguindo em frente. Para não ficar no empate entramos em uma rua local o tempo suficiente para tirar essa foto dessa estátua que não sabemos o que significa… mas fotografamos.

A rodovia que vai de Calama até Antofagasta é praticamente uma reta só. Pista simples, muitos caminhões, trânsito pesado.

Paramos para abastecer em um posto numa localidade chamada Sierra Gorda. Como funcionava 24horas pedimos se podíamos armar barraca em um canto do jardim, onde já tinha um ciclista acampando. Nos autorizou o responsável. Tomamos banho, cozinhamos e pernoitamos ali.

Deixe um comentário