Dia 19 (11/03/2019)

Trujillo x Yuracmarca

Tivemos uma noite ótima e revigorante de sono. Levantamos todos e fomos para o café da manhã. E olha que estava muito bom. Se consideramos o preço que estavam cobrando na hospedagem.

Na hora do check-out nem um problema. O recepcionista já era um senhor bem desenrolado que já encontrou a reserva paga pelo AirBnb nos atendeu muito bem e pronto, nenhuma alteração.

Trujillo é a terceira maior cidade do Peru, é uma metrópole e isto queria dizer que tem trânsito intenso o que significava o que o carro com certeza ia andar em rotação baixa e consequentemente começar a dar problema de cortar o combustível de novo.

Certamente quem está lendo perguntará, mas porque não para o carro em uma oficina para resolver o defeito dessa bomba de combustível. A verdade é que estamos falando de um carro importado dos EUA, é um Chrysler. E se em Curitiba já temos dificuldade de encontrar um mecânico capacitado a lidar com esses carros, quiçá num lugar onde esses carros nem chegam, como o Peru. E outra coisa, se o mecânico sacasse a bomba e avariasse mais, e ficássemos definitivamente sem poder usar o carro, game over para nós. Já estávamos com o problema dos cartões que reduziram o acesso ao dinheiro. Calcule ter que gastar com passagens de ônibus e aéreas para voltar ao Brasil e esse carro ter que ficar lá pelo Peru. Embora a idéia de vender esse carro lá e voltar de avião já estava sendo cogitada na minha mente.

Saímos do hotel e fomos procurar uma loja da operadora Entel para resolver o problema do chip que não estava mais funcionando. Resolvemos o problema do chip tendo que comprar outro. O que tínhamos comprado em Tacna tinha estragado.

Agora era o plano era chegar em Caraz, pois queríamos ver a tal Laguna Parón… o Google Maps nos enviou por uma rota que aparentemente seria de cascalho uma boa parte. A alternativa seria ir até Chimbote e pegar outra rota, mais longa porém com asfalto… por lá que fomos.

A pista simples mas com asfalto bem conservado e o baixo tráfego favoreceram o rendimento da viagem. Caminho com muitos túneis, passagem entre escavação nas montanhas de pedra, pontes estreitas, a pista margeando um rio de água veloz, uma sensação de aventura fantástica. Após passar esse “pueblo” de Chuquicara, existia uma ponte e após a pista ficou bastante estreita. Até cabem dois veículos lado a lado, mas na prática quando vem um ao encontro do outro o melhor é o que está mais favorável encostar à direita (ou esquerda se for o caso).

Por esse motivo a buzina é uma necessidade absoluta para quem trafega nessa estrada, tanto que existem placas informando a obrigatoriedade do acionamento antes de curvas e túneis… e tem que buzinar mesmo, quanto mais alta melhor! A nossa estava meio rouca, nem tinha muita eficiência, já os caminhões e ônibus dava para ouvir as buzinas de muito longe!

Mas como não poderia deixar de ser… essa foi uma das partes em que o fim da viagem com a Caravan parecia ter chegado! Fazia pelo menos 30ºC e o motor já estava dando sinais de problema por causa do calor. E depois de fazer uma dessas curvas de buzina, o carro parou de funcionar. Aí nessa hora o certo é manter a calma, avaliar a extensão do problema e como é possível resolver, claro! Aqui sentado lendo a história todos concordam que não adianta se estressar. Mas lá, no meio do nada, num lugar onde sequer é possível encostar o carro, não tem absolutamente ninguém morando nas imediações… realmente assusta, apavora!

Passamos uns 15 minutos de extrema tensão, aguardando o motor esfriar, bati a partida e o carro pegou. Andamos nem 2 ou 3 km e parou novamente. Se sucedendo as paradas por uns 30 km até que paramos em um lugar de onde eu sinceramente achei que não iríamos sair mais. Já se aproximava das 17h00, e o Sol querendo se esconder atrás das montanhas. Até que passou um caminhão com alguns operários que trabalhavam na manutenção desta estrada. Tínhamos passado por eles alguns quilômetros antes. Fiz sinal e pararam. Pedi se era possível me rebocar até um local onde existisse um povoado. Um dos operários disse que estávamos a uns 10km do povoado de Yuracmarca, e que lá poderíamos encontrar um “mecânico”! Sério! O cara disse: mecânico! Repete… soava como salvação! Então tratamos de montar o cambão. Era um daqueles de três partes, com 2 metros de comprimento. Não deu certo. Era preciso engatar na estrutura da traseira do caminhão e o primeiro ponto que era possível prender o cambão não alcançava o suficiente para o carro ficar afastado do caminhão, o capô da Caravan ficaria embaixo da carroceria, quase tocando o para-choque. Então precisaríamos de uma corrente ou corda para alongar, e adivinhe… não tinha nem no caminhão nem com a gente!… Daquele dizer “Deus dá a farinha e o diabo carrega o saco!”… Mas o nosso Deus fez mais por nós do que merecemos! Nesse tempo que ficamos deliberando o carro esfriou, bati na partida e ele funcionou, normal. Agradecemos a ajuda dos operários e disse que iria na frente, se o carro estragasse novamente eu pararia na estrada e ia esperá-los para nos levar nem que fosse na carroceria até o vilarejo adiante.

Dali em diante não poderia ser diferente. Considerando a aplicação pura das leis de Murphy, a estrada tornou-se mais sinuosa e em aclives bem acentuados. Eu deixei o cambio no 2 para não passar da 2ª marcha e acelerei para não baixar a rotação, mas isso causou o aquecimento motor muito acima do normal. E o mostrador de temperatura que nunca passava do meio já estava perto do limite no vermelho. Tive tempo apenas de terminar a última subida, assim que o pista ficou plana encontramos um espaço grande para encostar.

Agora sim, o bicho estava feio! Barulho alto de água evaporando vindo de alguma parte do motor, parecia uma panela de pressão. Logo imaginei que alguma junta, mangueira, selo do motor deveria ter rompido devido ao super aquecimento… se não tiver empenado o cabeçote já seria um grande dádiva, pensei!

Esperamos o caminhão com os operários vir, e eu iria com eles buscar o tal mecânico que disseram existir no vilarejo. Era diminuta a expectativa de que em um lugar tão isolado existisse um mecânico habilitado a “mexer” na Caravan, mas não tinhamos alternativa naquele momento.

O caminhão veio, alguns operários solícitos desceram e disseram que o mecânico do vilarejo estava vindo numa van que chegaria logo e que trabalhava com eles. Que boa notícia! Foram embora e após alguns minutos de fato veio uma Besta com mais operários, e entre eles o mecânico. Um rapaz muito prestativo, não lembro mais o nome dele, mas se um dia ele ler esse relato quero deixar registrado nosso agradecimento pela força que ele nos deu. Infelizmente o diagnóstico não era nada agradável. Quando batia a partida era visível raios de energia em volta da bobina, como naqueles brinquedos que arrepiam os cabelos de quem encosta… nosso caso só de ver aquele efeito na bobina já arrepiava até o calcanhar!… A bobina parecia estar condenada. Num primeiro momento você pensa: “agora ferrou”! (usando um termo suave, pra não dizer o que a gente fala mesmo). Onde iria encontrar uma bobina de uma Grand Caravan naquele fim de mundo?… Talvez nem em Lima, que estava sei lá quantas centenas de quilômetros dali.

O mecânico foi embora, dizendo que talvez, talvez, quando esfriasse a bobina voltasse a funcionar por mais um tempo. Felizmente não havia qualquer dano no motor por conta do aquecimento excessivo. Agora era pedir a Deus que continuasse a nos abençoar, como tinha feito até ali! O plano agora era preparar acampamento, nos alimentar, conseguir água, fazer um fogo… E foi o que fizemos. A Neide e o Matheus pegaram carona com um caminhoneiro e foram até o vilarejo buscar alguma coisa para incrementar a janta.

Enquanto isso fomos fazer contato com nossos “vizinhos”. Sim, do outro lado da estrada existia umas três casinhas de uma família muito humilde. Eles nos deram manga e um pouco de lenha, e o ancião da família, um senhor muito querido, me mostrou o cano onde eu poderia pegar água potável. Tinha uma horta próxima de onde tínhamos montado a barraca, e que era irrigada pela água que vinha de uma mangueira preta. Essa mangueira era emendada em uma outra que vinha de um poço no quintal deles. Passava por baixo do asfalto a mangueira. Nessa emenda que estava o segredo, era só desconectar. Ele me mostrou algumas vezes como fazer, e me orientou a não esquecer de emendar de novo. Uma pena não termos tirado foto desses vizinhos…

O Matheus e a Neide voltaram de tuc-tuc. Na pior das hipóteses já tinhamos um meio de transporte para ir até algum lugar se ficássemos por ali mais alguns dias…

Assim a noite foi chegando. Pelo menos não tinha pernilongos. Jantamos uma comida deliciosa feita no foto de chão, o qual deu um trabalho muito grande pra manter, pois tinha pouca lenha e nada em volta que pudesse se transformar em combustível. Passavam um veículo a cada 10 ou 15 minutos. Até a viatura da Polícia Carretera, porém não se preocuparam em parar. Também não podiam ajudar muito.

O Matheus disse que o caminhoneiro que deu carona a eles dera umas dicas para resolver o problema da bobina. Uma era envolver ela com flanela ou estopa úmida, isso retardaria o aquecimento. O outro seria envolve-la com barro e esperar secar. Essa do barro segundo caminhoneiro tornaria possível andar pois muitos quilômetros. Se andasse o suficiente para chegar a um local onde tivesse recurso já estaríamos no lucro. Mas não fiz nem o truque da flanela nem do barro. Terminamos de jantar e fomos dormir. O dia seguinte era uma incógnita.

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