YuracMarca x Caraz
Com certeza aquela não foi uma noite para se dormir bem. O cansaço do dia bateu forte, mas a incerteza do que aconteceria quando amanhacesse realmente incomodava. Perdi a conta de quantas vezes abri os olhos e olhei o teto amarelo da barraca e imaginava o que iria fazer quando batesse a partida no carro e não o motor não funcionasse. Definitivamente a única pessoa que poderia contar naquele momento era com Deus e o seu poder. E finalmente adormeci, e o dia logo clareou. Pois bem, era hora de encarar a realidade. Antes de abrir os olhos pensei, deve ser um sonho tudo isso. Vou acordar agora e vou ver o teto do meu quarto, as lâmpadas, o sol entrando pela janela… Que nada. Abri os olhos e lá estava o nylon amarelo da barraca, iluminado!
Bem, agora não tínhamos muita alternativa a não ser agir. Enquanto o café da manhã era preparado na mesma fogueira usada para prepararmos a janta na noite anterior, juntamos um pouco de terra molhamos e fizemos uma lama para colocar sobre a bobina. Que falta de fé a minha, penso agora! Porquê não experimentei ligar o motor antes. Na ansiedade de sair logo daquela situação nem pensei nisso, ninguém pensou. Fomos logo tratando de colocar o barro sobre a bobina. Para secar mais rápido e endurecer usamos a bombinha elétrica de encher o colchão inflável. Isso com o risco de gastar a bateria do carro que seria usado na partida. Sim, foram pelo menos 15 ou 20 minutos soprando, e o barro nem tinha dado indícios de que iria secar daquele jeito. Iríamos ter mesmo que esperar secar aquela meleca? Ia levar o dia todo naquele ritmo, e sem a garantia de que funcionaria. Pois bem, bati a partida. Sem chance! As faíscas elétricas pareciam sair com ainda mais intensidade da bobina do que quando paramos. Agora lascou! Para não dizer outra coisa. Respira, pensa, ora! Uma coisa era certa, aquilo não iria funcionar, mesmo! Então retira todo esse barro de cima da bobina.


Voltamos a estaca zero, e agora com uma bobina toda suja de barro. Até onde aquilo afetaria o restante das peças, não tinha nem idéia! Mas nós temos um Deus, que é todo poderoso e protege seus filhos errantes mesmo em caminhos longíquos e nas situações mais complexas. Bastou removermos aquele barro todo, passarmos um pano úmido para deixar o mais limpo possível e voilá! Bati a partida e o ronco dos seis cilindros saiu forte, parecia uma fera adormecida acordada de súbito. A música mais linda que ouvi naquela manhã, aquele som grave saindo do escapamento… parecia implorar, vamos embora daqui, logo! Não deu nem tempo de pedir uma segunda vez. Colocamos tudo pra dentro, na verdade já tinha muita coisa lá, mas nem ajeitamos. Como uma graça divina alcançada acelerei sem me despedir daquele pequeno pedaço do mundo.
A cidade mais próxima onde poderíamos encontrar uma oficina mecânica confiável se chamava Caraz, e ficava a pelo menos 50km de onde partimos. Parece pouco, mas quando se está com um carro que pode parar a qualquer momento, em definitivo, numa estrada no meio de uma cordilheira, a história muda muito. E graças a Deus chegamos em Caraz, sãos e salvos. Nem parecia real que estávamos entre a civilização.
Procuramos uma oficina. Tinha que ser uma com pelo menos aparência de possuir profissionais qualificados para por a mão na nossa nave. Encontramos uma, Bosh Car Service Caraz, parecia atender aos requisitos. Não estávamos exigindo demais. A viagem já estava tão sofrida, a grana tão curta. Não dava para arriscar deixar alguém fazer uma gambiarra e ficarmos outra vez na estrada. Pelo menos entrou funcionando, o mínimo que esperávamos era sair do jeito que entrou.
O senhor que nos atendeu foi gentilíssimo. Acredito ser o dono da oficina. Muito atencioso, ouviu nossas narrativas e não arriscou dar um diagnóstico precoce. Colocamos no elevador da oficina, não sem antes perguntar se teria algum custo o orçamento. Queríamos evitar desagrados e gastos desnecessários. Ele disse que não cobraria para fazer o orçamento.
Colocamos a Caravan no elevador. Mediu a pressão da bomba, tudo certo. Abriu o capô, testou a bobina, tudo certo. Inacreditável. Tirou uma vela, acoplou um manômetro no lugar. Pediu para bater partida, uma, duas, dez vezes, sei lá! Tira outra vela, manômetro, partida. Diagnóstico: não era a bomba o problema, nem a bobina, segundo ele o problema estava no motor, que já estava cansado. Como é? Sim, o motor apresentava fadiga. Mostrou o resultado do manômetro e explicou, que um motor sadio trabalha em 180psi, que essa era a pressão de trabalho normal dos pistões. O motor da Caravan estava trabalhando em 100psi. Estava fraco, precisaria retificar. Claro! Tudo que a gente precisava agora era fazer uma retífica, num monstro de um motor Chrysler, sem grana e sem tempo. Por uma questão de respeito ao tratamento dispensado não falei o que deu vontade. A Are perguntou, acredito que o fez mais por curiosidade: Quanto tempo ficaria pronto e quanto custaria. Resposta: Uma semana pelo menos, e uns 2500 soles. Sim, o preço até que estava abaixo do que sairia um conserto dessa envergadura no Brasil, mas uma semana? Nem sonhando. Perguntamos o que achava de irmos com o carro até a Laguna Parón, se ele achava que o carro chegava. Isso porque partindo da cidade a Laguna estava a mais de 30Km de ladeira acima em estrada de chão. A recomendação dele era de ir subindo devagar, a altitude iria fazer o carro perder mais potência ainda. Quando parasse esperava um pouco, subia mais. Se parasse mais de três vezes, não insistir. Eis nosso dilema. Subir or not subir. Resolvemos arriscar. Loucura não? Mas a gente não se entrega por bem!
Tiramos o carro da oficina. Já era perto do meio-dia. A fome apertando. Começamos a escalada. Nos primeiros quilômetros já era um prenúncio do que estava porvir. Estrada de cascalho grosso, estreita, montanha do lado esquerdo e desfiladeiro do lado direito. Talvez tenha rodado uns cinco quilômetros, manobrei e comecei a retornar. Estava em meu juízo perfeito, não dava. Voto vencido, a família insistia para continuar. Fiz sinal para um táxi que subia, levando turistas. Perguntei quanto cobrava para levar nós todos até a Laguna, respondeu 150soles e disse uma das frases mais emblemáticas da viagem: “- Mas porque não sobe com seu “carrito”? Olhei para o meu pessoal dentro do carro. Escondiam o riso. Realmente. Como explicar para aquele humilde senhor numa perua Toyota toda surrada que a minha peruona estava sem condições plenas de combate… perguntei se importava de seguí-lo, disse tudo bem; manobrei e fui acompanhando até chegarmos em um lugar em que algo nos chamou a atenção e precisamos parar. Eram plantações de gipsofila, mas além disse eram a céu aberto e sem muitos recursos. Concordamos em parar na volta para ver essa produção com mais carinho.
A Caravan conseguiu ir até o marco 23 da estrada, o destino seria no 31 ou 32. Simplesmente não subia. O tanque de combustível estava cheio. Ligava, funcionava, quando acelerava o motor desligava. Como se tivesse sem ar. Optamos pela orientação dada pelo mecânico de não insistirmos. Deixamos a Caravan bem estacionada e continuamos o caminho a pé. A Neide ficou no carro. Nós seis fomos seguindo morro acima rumo a Laguna Parón. A estrada serpenteava a montanha. Era possível em algumas partes ver a continuidade da estrada quase acima de nossa cabeça acima da montanha. Notamos o movimento de carros voltando mas nenhum mais subindo. O motivo já estava bem notável, o sol já estava prestes a se esconder por trás da montanha, ia esfriar e escurecer em menos de duas horas. Mas não dava para correr. Existiam placas indicando o “trekking”, atalhando em muito o caminho. Àquela altura eu já estava achando que não existia laguna alguma. Estava desanimando. O ar rarefeito não ajudava em nada.
Encontramos córregos de àgua azul, indicando que já estava se aproximando da laguna e finalmente iríamos ver o tal montanha da Paramount. Começou a cair uma garoa bem fina. A neblina já demonstrava que iria baixar. Já parecia ser um bom negócio voltar enquanto ainda não tinha começado a chover. Mas daquele ponto só pensávamos em chegar logo na laguna. Paramos uma van, voltando. O motorista disse que ainda tinham dois carros lá no estacionamento do parque e que um parecia ser taxi. Era nossa esperança de voltar para a Caravan antes de anoitecer. Os celulares não tinham mais bateria praticamente. Não era uma opção muito agradável fazer aquele percurso no escuro, com chuva, sem lanterna e cansados!
Mais um gás morro acima e escutamos os gritos do Matheus e do Diogo que iam mais adiantados: “Chegamos, chegamos!”. Parecia inacreditável. Chegamos. Graças a Deus! Extremamente esgotados, eu e a Are pelo menos. O local tem uma instalação com cozinha e hospedagem. Uma grande varanda coberta onde serve refeições. Quando chegamos a neblina já estava bem baixa, então não conseguimos registrar a laguna em todo seu esplendor! A sensação da conquista, de ter vencido aquele desafio, chegado no objetivo, e aquela visão, nunca esqueceremos. Foi um dos feitos que realizamos em família que serviu de lição para todos nós, principalmente de manter o foco e unidos. Eu confesso que considerei desistir muitas vezes e voltar pro carro. Mas a vontade de saber se essa laguna era tudo aquilo que falavam superou. E é sim! A laguna é maravilhosa.
Como “recompensa” pelos nossos esforços além da vista espetacular tomamos o chá de muña e comemos milho de grãos gigantes cozido (era a única coisa que ainda tinha para comer). E para fechar, tinha um carro para nos levar de volta até a Caravan. Era um funcionário do parque, cobrou 30 soles pela corrida. Me lembro do tanto de fumaça azul que saia enquanto o carro esquentava, mas era a nossa tábua da salvação naquele momento. Quando voltamos até a Caravan encontramos a Neide no meio da estrada fazendo sinal para parar. Não viu que estávamos dentro daquele carro. Quando viu fez gesto de alívio. Ela disse que ia pedir ajuda para manobrar a Caravan e subir com o carro morro acima atrás de nós, estava preocupada. Chegamos a tempo de evitar um resgate suicida!
Na volta a Caravan funcionou bem de boa. Não falhou nem um pouco. Estava chegando a noite e ainda queríamos conhecer o produtor de gipsofila. E deu certo. O Sr Ramirez nos recebeu muito bem, mostrou sua produção. Totalmente artesanal. Nos mostrou como produzia suas mudas e os canteiros. Sua filha nos acompanhou e explicou como funcionava a venda. O valor que passavam para o atravessador era pelo menos 3 vezes menor do que o praticado por aqui. Foram muito corteses conosco. Saímos daquela propriedade com uma sensação muito agradável de encontrar algo bom que não estávamos procurando… chegamos na cidade de Caraz.
Precisávamos encontrar um lugar bom, limpo e barato para pernoitar. Hotéis muito simples. Pelo menos dois desistimos na recepção, pelo preço e condições higiene. Um que nos agradou oferecia café da manhã e lavanderia, bem no centrinho. Não tinha estacionamento, mas tinha vaga na rua bem na frente. Nos acomodamos, tomamos banho e fomos comer. Era unanimidade que queríamos comer carne! Fomos numa Polleria chamada Gerardo’s próxima do hotel.
Comemos um frango assado mais parecido com um manjar dos deuses, com coca-cola… hum! Fizemos amizade com um dog. Parecia ser amigo do proprietário, ou lá era comum deixar animais permanecerem dentro do estabelecimento. Era um caramelo, muito querido. Ganhou uns ossinhos, não tava nem aí se era de frango. Quando percebia que estavámos esquecendo dele batia com o focinho na minha perna para chamar atenção… fizemos um vídeo dele.
Agora, depois de um dia tão repleto de aventuras… fomos para o berço! Deitar em um colchão…



































