Calama x San Salvador de Jujuy
De manhã fomos ao Hipermercado Lider de Calama, para trocar uma geléia de morango que tínhamos comprado no Lider lá em Arica. Esse produto estava mofado quando abrimos. Eles relutaram alegando que só iríamos conseguir trocar lá em Arica. Nem precisa dizer que não arredamos o pé, e tiveram que trocaram. Não era do mesmo sabor, mas trocaram, por um de pêssego, não lembro direito.
E partimos para São Pedro do Atacama. No caminho, logo que saímos de Calama, paramos em uma capela montada a beira da estrada onde existe uma réplica de um veículo acidentado onde um rapaz morreu. É por demais interessante pois existem homenagens escritas a mão nas janelas dessa carro. Nelas se pode ler as palavras de dor do pai e da irmã do jovem falecido. O nome dele é Javier Buscañan. Realmente é emocionante ler as cartas expostas na capela e as declarações…
Foi providência divina ter parado aí! Aproveitei para olhar a água do radiador, tinha conferido antes de sair do posto em Calama, mas uma voz me dizia para verificar novamente. E acreditem ou não, eu tinha esquecido de colocar a tampa do radiador, ela estava ali, equilibrada na parte frontal interna perto da fechadura do capô. Já dá para imaginar o que aconteceria se aquela tampa caísse no caminho… mas Deus é muito bom, e nos livrou de muitos infortúnios, e dessa vez só posso creditar a Ele esse aviso! Obrigado meu Deus!!
Seguimos para San Pedro do Atacama. Chegamos perto das 11h00. Passeamos mais um pouco por San Pedro, é muito bom! Na praça principal descobrimos que tem wi-fi free. Aproveitamos para fazer todas as atualizações no celular, responder as mensagens e programar o roteiro.

Abastecemos no que à época pelo menos era o único posto de combustível de San Pedro do Atacama. O preço é normal, nada de explorar o turista. Partimos então rumo a fronteira com a Argentina. Agora mais espertos já reservamos dois garrafões de água mineral vazios de 7 litros (é a medida que vende por lá), a idéia era quando passar a Aduana em Paso de Jama abastecer no posto após e não vacilar com a Caravan, pois agora ela entrou no modo de falhar quando baixasse de meio tanque.

Nos deslocamos sentido a Argentina. A subida para alcançar as altitudes dos Andes e chegar na fronteira é muito íngreme, extensa e o exige muito esforço do carro por conta do ar rarefeito, e… claro! A Caravan não vencia, parecia estar esganada, como alguém querendo fazer força mas algo prendendo, arrastando para trás. E com uns 15km de subida a madame não suportou, começou a ameaçar parar… eu manobrei no estilo 180º e parei numa área de escape no sentido contrário. Se fosse para terminar a viagem por ali seria pelo menos com a perspectiva de descida para San Pedro novamente! Bom, agora era relaxar e torcer para não ter fervido o motor. E isso me parecia um hipótese possível, visto os estalos que fazia próximo das juntas… Montamos uma proteção para o sol, fizemos uma oração, e relaxamos. A Neide tratou de preparar algo para nos alimentarmos, no maior estilo ESAON…
Nossas orações chegaram ao Criador e depois guardarmos as malas e nos acomodarmos, motor frio. Bati partido e a Caravan funcionou normal, como se nada tivesse acontecido… e assim continuamos a viagem, aliviados! Encontramos flamingos e lhamas no caminho até a fronteira…
E chegamos a nossa querida Argentina! Que parece uma irmã chata, mas que gostamos demais dela!
Fronteira, tudo tranquilo… só tinha um detalhe… o posto em Paso de Jama não aceitava cartão… e estávamos sem efectivo, ou seja, cédulas de peso argentino. E não tem caixa eletrônico num raio de sei lá quantas centenas de quilômetro… então nosso plano de encher as garrafas não iria dar certo por hora. Não tínhamos alternativa, só tocar em frente. Foi o que fizemos. Até Susques, seria mais uns 120km. Consideramos que já tínhamos percorrido 160km desde San Pedro, maior parte sendo ladeira acima, consumindo uns 5km/l pelo menos, isso dava uns 32litros, o tanque com capacidade para 70litros. Chegaríamos em Susques com quase 1/4 do tanque, e a Caravan não estava funcionando bem com menos de meio tanque, ou melhor, não funcionava mesmo, a bomba não puxava o combustível. Andando no modo economy full, quase sem pressionar o acelerador, aproveitando todas as descidas ao máximo, chegamos em Susques… Antes passamos por um lugar chamado Pastos Chicos, vimos duas bombas de combustível, mas parecia ser um lugar abandonado, uma área particular, não vi acesso num primeiro momento. Continuamos até chegar em Susques. Tinha até um centro de apoio aos turistas, fechado! Tinha uma placa escrita a mão, letra toda borrada indicando YPF para a direita. Encontramos o que seria o posto de combustível, uma única bomba. Ninguém para nos entender e uma mensagem desoladora colado nela: “NO HAY NAFTA”.
Agora parecia o game over. A Caravan certeza não iria andar mais que alguns quilômetros e parar. O Matheus caminhou até a vila e pediu informação sobre gasolina. Voltou dizendo que um morador disse que gasolina só em Pastos Chicos, mas não aceitavam cartão, só dinheiro, mas que tinha um caixa eletrônico em Susques, e indicou o caminho. Eu não estava acreditando, naquele fim de mundo, um caixa eletrônico? E não é que tinha mesmo… Só faltava conseguir sacar, e… deu certo! Nunca iria imaginar que num lugar tão remoto iria existir uma terminal de saque 24h da rede Macro funcionando e com dinheiro, era muita sorte! Muita interseção divina direta com a gente! Fizemos até amizade com um dog que perambulava por lá!

Pastos Chicos estava a apenas 4 ou 5km dali. Um rapazinho nos atendeu, muito simpático e bom de conversa! O preço estava bem acima do praticado na Argentina, pagamos quase 50pesos,enquanto em outros postos era 41 ou 42 pesos. Mas ele explicou que o caminhão vinha de Jujuy para abastecer o posto, e isso encarecia o produto. E realmente, subir aquela cordilheira toda para entregar ali, fazia todo sentido o valor elevado. Já tratamos de encher os galões de 7litros e partimos para seria o último desafio da viagem, descer os Andes… de noite!
O que animava era saber que dessa vez iríamos descer, ou seja, só precisaria controlar para não ficar sem freio. E se a Caravan desligasse durante a descida o sistema de frenagem ficaria comprometido. Ela não poderia falhar num momento como esse, ou poderia ser o nosso fim. A noite escondia os desfiladeiro, isso facilitava a concentração. A Arethusa ia ajudando com a navegação orientando qual a intensidade e direção das curvas, pois não dava para cogitar olhar para o gps nessa hora. A exigência de concentração era total. Entre uma curva e outra o combustível já tinha baixado bastante, e a Caravan já dava sinais que iria falhar. Parei numa área a direita que cabia ela com segurança e coloquei o primeiro galão de 7 litros. Então continuamos a descida sem mais surpresas, e finalmente chegamos no plano já em San Salvador de Jujuy. Colocamos os outros 7litros para não ficar carregando dentro do carro e seguimos.
E sim, quando achamos que estávamos confortáveis e a tensão dos Andes havia passado, ainda tinha o round 2! As surpresas não acabavam… uma neblina absurdamente densa. Mesmo com a iluminação auxiliar ligada era possível enxergar apenas 10m à frente do carro, nada mais! A sinalização apagada, não dava para identificar um lugar para encostar. E talvez encostasse e não passasse, parecia um fenômeno absolutamente comum, pois as placas alertavam sobre a neblina a todo momento. Esse sim foi um momento de absoluta tensão, não dava para vacilar nem um segundo, atenção total, pois uma traseira de caminhão poderia surgir à frente e nem haveria espaço para reação e frenagem sem colidir. Mas o Nosso Deus é muito maior, e nos protegeu mais essa vez e finalmente atravessamos incólumes o trecho de neblina.
Era muita coisa pra um dia só, exaustos estacionamos em um posto YPF na localidade de Palpala na Argentina. Tinha banheiro com chuveiro quente, um lugar para colocar a barraca bem tranquilo! Pernoitamos. Que dia intenso!!
















































